Outubro 07 2010
Arca dá nova Vida em Mira Escrito por Regina Bilro 04-Fev-2009 Está instalada em Mira, há cerca de sete anos, a quinta de primeira fase da Associação de Solidariedade Social Arca da Vida. Paulo Rodrigues é o responsável pela unidade que, neste momento, dá apoio a oito toxicodependentes. Uma tarefa "difícil", mas que o responsável desempenha com espírito de missão. Não se trata exactamente de uma quinta, na verdadeira aceção da palavra, mas de uma casa (velha) de habitação com quintal, a Quinta de Primeira Fase da Associação de Solidariedade Social “Arca da Vida”, a funcionar em Mira desde 2002. Para ali são encaminhados os toxicodependentes que dão entrada voluntariamente na instituição, num processo que começa, regra geral, através de um telefonema para o 229 687 923, o número da sede da instituição, na Maia. Paulo Rodrigues é o responsável pela casa desde a sua abertura. Ex-toxicodependente (deixou o vício há cerca de 15 anos), usa a sua experiência para ajudar quem é colocado sob a sua alçada. “Muitos ficam só uns dois, três dias”, afirma, olhos postos num quadro de cortiça onde começou a afixar, desde há poucos meses, as fotografias dos que entram na dependência de Mira da “Arca da Vida”. Embora a entrada na associação seja voluntária, é frequente o apelo da droga ser mais forte que a vontade de a abandonar. Apesar do programa da “Arca da Vida” ser apoiado em medicamentos, de acordo com Paulo Rodrigues estes não são suficientes para neutralizar o vício. “Os medicamentos só controlam cerca de cinco por cento do corpo. Os restantes 95 por cento continuam a sentir necessidade das drogas”, explica. O papel deste responsável passa, assim, por dar apoio, incentivo e acompanhamento permanente a quem decide abandonar as drogas. “O que não é fácil, sobretudo nos primeiros meses”, sublinha Paulo Rodrigues. Disciplina de trabalho Contas feitas muito por alto, em cada centena de toxicodependentes que entra para a “Arca da Vida”, apenas um, em média, abandona definitivamente o consumo de drogas. O número parece desesperante para quem vive longe desta realidade. Mas para Paulo Rodrigues ele está longe de desagradar. “É de pessoas que estamos a falar. Se conseguirmos salvar uma vida, o trabalho já valeu a pena”, salienta. Quem entra na “Arca da Vida” aceita, à partida, as regras que lhe são impostas. A primeira é, naturalmente, o abandono das drogas. Depois há que obedecer ao monitor e à sua disciplina. Na Quinta de Mira, o dia começa com a arrumação da casa. Após uma pausa para um café, retomam-se os trabalhos, só interrompidos para as refeições. Numa visita pelo espaço, é bem visível o cuidado na limpeza da casa, no tratamento das roupas, no cuidado dos animais de estimação e no cultivo do quintal. Nada parece estar fora do lugar, quer dentro ou fora da casa. “A minha preocupação é assegurar-me de que eles estão sempre ocupados”. De acordo com o responsável, o trabalho ocupa a mente, deixando menos espaço a que os pensamentos fluam para onde não devem. Será por essa razão que é tão “mandão”, embora “não autoritário”. “Se vejo alguém parado, começo logo a ralhar. Mas sei mandar. E também sei conversar, dar um abraço quando é preciso... Eles entendem-me”, explica. Importância do diálogo Segundo Paulo Rodrigues, a “Arca da Vida” funciona “como uma família”, chegando, frequentemente, a substituí-la. “A maioria dos que aqui chegam tem problemas com os pais, com a justiça... O que fazemos é tentar com que eles se reconciliem com as famílias, fazemos a ponte, o que nem sempre é fácil. A quem tem processos em tribunal, acompanhamos nas audiências, damos apoio...” . Neste momento vivem na dependência de Mira da “Arca da Vida” seis homens em recuperação, para além de Paulo Rodrigues e da sua companheira. O responsável esforça-se para que o rumo da conversa não se vire para os casos de insucesso, preferindo falar do tempo presente e do funcionamento da casa. Por exemplo, quem se “porta mal” é proibido ver televisão por 30 dias, ir ao café ou participar nas atividades lúdicas do grupo. O diálogo é um dos pontos importantes da recuperação. Paulo Rodrigues esforça-se para incentivar quem está sob a sua responsabilidade a reorganizar a sua vida, a poupar e a procurar trabalho. “Mas não é fácil. Tenho que lhes ensinar tudo. Há quem chegue aqui sem saber comer à mesa ou sem saber tomar banho”, explica. Todas as sextas-feiras os internos na dependência de Mira da “Arca da Vida” vão ao Porto, para acompanhamento profissional. Domingo sim, domingo não, participam no almoço convívio da instituição. Cerca de três meses depois de darem entrada na instituição e dependendo da sua recuperação, passam para a unidade existente na Maia. Ali experimentam uma maior integração na sociedade, trabalhando em limpezas e fazendo serviços de mudanças. A Paulo Rodrigues resta a esperança de que não voltem a cair em tentação. Loja de usados A quem passa em frente às instalações da “Arca da Vida”, em Mira, não passa despercebida a “loja”, como lhe chama Paulo Rodrigues. Trata-se de um espaço localizado logo na entrada da habitação onde se pode encontrar à venda tudo o que se possa imaginar – electrodomésticos, móveis, louças, brinquedos, roupas, entre muitos outros – a preços muito reduzidos. “Tudo o que aqui está foi-nos oferecido”, explica Paulo Rodrigues, apontando para os inúmeros objetos existentes naquele espaço. Há artigos novos, oferecidos à instituição por diversas empresas, mas a maioria é em segunda mão. Alguns chegam à “Arca da Vida” em tão bom estado, que não necessitam de qualquer intervenção. Outros precisam de pequenos arranjos, realizados pelos elementos da associação (“É uma forma de estarmos entretidos”, defende Paulo Rodrigues). Segundo o monitor da “Arca da Vida”, a loja é visitada diariamente por pessoas de diferentes estratos sociais, em busca de pechinchas, mas também por comerciantes de velharias. “Todos os dias fazemos cerca de 150, 200 euros em vendas”, acrescenta o responsável. Homem de sorte Paulo Rodrigues tem 45 anos. Abandonou o vício das drogas há cerca de 15 anos, com o apoio da “Remar”, uma instituição semelhante à “Arca da Vida”. “A diferença é que aqui não dão apoio espiritual”, defende. “Quando entrei para a “Remar” estive internado seis meses. Queriam-me cortar uma perna”. Na altura, o que mais impressionou Paulo Rodrigues foi o facto de várias pessoas se terem reunido em torno da sua cama, no hospital, em oração. Aquela situação impressionou-o de tal forma que decidiu juntar-se “aos bons” – ri-se. Quando saiu da “Remar” esforçou-se por procurar emprego, mas sem sucesso. Um dia, sem dinheiro para pagar mais uma noite numa pensão, viu um autocolante da “Arca da Vida” numa estação de comboio e decidiu ligar para o número que indicava, pedindo ajuda. Entretanto, foi convidado a ficar na instituição e a abrir a dependência de Mira. Aceitou. Hoje acredita ser “uma pessoa de sorte”. “Aqui não me falta nada. Acho que Deus me ajuda muito. Nada me corre mal. A sensação que tenho é a de que quanto mais ajudo quem aqui chega, mais recebe”, afirma.
publicado por arcadavida às 13:23

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